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domingo, novembro 22, 2009 

Distopia


A ler a tradução francesa de A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again do David Foster Wallace, isto é, "Un truc soi-disant super auquel on ne me reprandra pas", editado pela "Au Diable Vauvert", que se pode encontrar, por enquanto, na Ler Devagar.
A peça central do livro é a tradução da reportagem  publicada na Harper's em Janeiro de 1996, com o título "Shipping out". Contratado pela Harper's, DFW, embarca num cruzeiro de sete dias às Caraíbas, num superpaquete hiperluxuoso. A vida a bordo está minuciosamente programada para proporcionar ao viajante o requinte absoluto e preocupações zero.
A empresa que organiza o cruzeiro pensa em tudo, até na formas disponíveis para o cliente descrever a sua experiência. Um exército aparentemente inesgotável de tripulantes e empregados vela para que ele não tenha o menor aborrecimento em nenhum momento.
É, literalmente, o sonho realizado da "abolição do trabalho". O Pays de cocagne em movimento, o Santo Graal da nossa era. Uma antevisão da Matrix.
O reverso da medalha deste mundo ideal, tão ideal que é pressurosamente negada aos que o experimentam, a necessidade, sequer, de o interpretar, o que o torna possível, é a sociedade rigorosamente estratificada e disciplinada dos tripulantes, exército sorridente de formigas humanas dirigida sem falha pelos responsáveis do navio e da companhia que o explora.
Um desdobramento de metáforas que poderia transformar este texto como o ensaio, hoje possível, sobre a luta de classes e as relações de produção a nível planetário, sobre os pressupostos existenciais em que asssenta a nossa civilização.
Sinistro... e hilariante.
nota:
A foto é do meu exemplar do "Truc..." e apanha a  fotografia de DFW da autoria de Marion Ettlinger, publicada na contraguarda da edição da "Au Diable Vauvert".