sábado, março 28, 2009 

Quadraduras

Tal como há cinco anos, o homem continua à espera da bancarrota para daqui a cinco anos.
Acho que era altura de reeditar aquela droga do "como queria demonstrar".
Também no Público, o céptico Pulido Valente desencanta-se de Obama, o homem ainda não resolveu o Mundo passados três meses.

 

Que las hay...

Assombroso e assustador. Parece teoria da conspiração, daquelas coisas que só a esquerdalhada diz por má língua.
Aparentemente o pessoal de boa vontade que durante semanas discutiu apaixonadamente o caso do Aeroporto foi ludibriado pela ânsia em acreditar na sageza dos empresários que só querem fazer andar o País para a frente recorrendo aos préstimos de gente competente, pessoal que apenas segue critérios técnicos e não sujeitos aos critérios politiqueiros impostos pelos ciclos eleitorais...pessoal pago por privados, logo rigorosamente independente para tirar as devidas conclusões "doa a quem doer"...
Autores de estudos, empresários e entidades patrocinadoras, tudo sai chamuscado desta história de que é forçoso conhecer mais detalhes. Chamuscados também, embora em menor grau os "entendidos" de café que durante semanas discutiram as "óbvias" vantagens de Alcochete.
É tempo deste debate infindo entre "público" e "privado" ser substituído pelo debate entre os que defendem aldrabões públicos ou privados e os outros.

sexta-feira, março 27, 2009 

Chaparro

Chego a casa com ideia de postar umas coisas que germinaram durante o percurso fermentadas pelo rugido do Metro ou pela visão dos automóveis despudoradamente estacionados em cima do passeio enquanto os donos estão na ginática e dá-me o sono. A net anda a dar-me sono, é o que é.
Faz-me lembrar de há uns anos atrás quando tinha de fazer semanalmente, nas madrugadas das sextas feiras, a viagem de carro entre Lisboa e Olhão .
Ainda não havia auto estrada para lá da Marateca, nem sequer IP1.
Talvez fosse da estrada, talvez fosse do carro, o que é certo é que a partir de certa altura começei a bocejar logo que atravessava a ponte.
A única forma de me manter acordado era arranjar uma distracção estúpida como provocar outro condutor, geralmente montado em equipamento de muito maior cilindrada, fumar um charuto mega, treinar vagas técnicas vocais inspiradas nos cantos dos xamans Tuva.
Invariavelmente acabava por encostar para umas roncadelas numa bomba de gasolina da Shell que havia ali a seguir ao Canal Caveira. Coisas da modernidade (e daquelas coisas todas que conjugadas corporizam grande parte das críticas ao nosso "estilo de vida" e dos maus investimentos do País, etc..), nunca mais lá passei desde que se completou a Auto-estrada. Agora parece que o Canal Caveira vai estar de novo no centro do País, já que a Câmara de Grândola, numa louvável iniciativa se prepara para declarar o sítio como "Capital do Cozido".
Houve noites em que nem sei como cheguei a esse oásis combustível sem adormecer ao volante.
Depois de encostar meia hora, lá seguia de novo estrada abaixo aos esses, só voltava a despertar quando a condução suicida proporcionada pelas curvas da Serra do Algarve e algum eventual picanço com outro viajante da noite me injectavam a adrenalina suficiente para aguentar até Olhão.
Ora é este o meu problema actual.
Sento-me ao computador e começam os bocejos... os posts ficam a meio, a minha caixa de rascunhos parece um daqueles cemitérios de barcos, textos desconjuntados, deixados a meio, meio devorados pelos peixes, por estranhas criaturas marinhas ou pelo sono.
Ainda a única coisa com interesse, que devo mais ao meu espírito do contra do que a outra qualquer disposição especial, é entrar em polémicas em caixas de comentários. As caixas de comentários dos blogs são potencialmente a coisa mais interessante deste meio. Mas hoje em dia é raro o blogger que reage a uma provocação. Há gente, acredite-se ou não mas é verdade, que sinceramente acha o comentador um sujeito "inferior", uma espécie de parasita que habita lá para baixo, para a caixa dos comentários, e frequentemente não se digna responder-lhe.
Por isso não é de estranhar a propensão para a hierarquização que parece enformar o grande oceano da imbecilidade humana. Por isso tem valor um blogger como o Dissidente-X que é daqueles gajos que só acaba uma discussão se for atingido por uma granada.
Fora estes casos, e pese embora a qualidade dos blogs que normalmente sigo em silêncio e de muitos desconhecidos que ainda não encontrei, ando com um certo tédio.
Há, é certo, os temas políticos. No mercado interno, porém, podemos dizer que o Governo é fraco, mas o que dizer dos fait divers que marcam a oposição, partidária ou não? Alguém pode levar a sério, comentar, cenas como a do sujeito que funda um movimento para exigir a demissão do Primeiro Ministro e que entrevistado pela televisão justifica a história com o facto de abrir o jornal ou ligar a televisão e ver notícias contra o Primeiro-Ministro?
Alguém pode levar a sério quem diga que hoje em Portugal se vive numa "democracia ditatorial"? (Só o nome atesta a inteligência de quem profere esta afirmação).
Na política externa, há muita coisa, certamente, mas o que fazer quando o Obama vai fazendo aquilo que se espera dele sem demasiadas ondas nem grandes expectativas?
Nem apetece ser anti-americano primário... só os fachos têm razão para se sobressaltar, sobre se quem fala por eles é o aborto do Rush Limbaugh ou um bushista "sério" como o David Frum... mas com os entusiasmos senis dos fachos posso eu bem.
Por falar de entusiasmos senis, há as declarações do Papa sobre o preservativo, certo, mas o problema é que tecnicamente talvez o Papa tenha alguma razão para alertar para o facto de o preservativo não ser, por si só, automaticamente um remédio para a SIDA como parece depreender-se de alguns discursos mais inflamados, e por outro lado, quem tem mais culpa?
O Papa que está na dele, ou quem o leva a sério?
Tédio.

quinta-feira, março 26, 2009 

Varíola

Tem-me apetecido postar sobre aquela história da demolição da casa do Arquitecto António Varela, mas não tenho tido tempo nem paciência.
As opiniões dividem-se: de um lado os mais ferozes defensores da modernidade a quererem defender "património" por se tratar de uma obra que consideram "emblemática". Do outro os tradicionalistas que querem pura e simplesmente arrumar com a questão, isto é, implodir o caixotinho que ao que parece nunca chegou a ser habitado.
Eu, sempre sensivel às causas perdidas lá assinei a petição para não deitarem a coisa abaixo, em grande parte porque fui convencido pelas fotografias do Paulo Cintra evidenciando a extensão do trabalho do Almada Negreiros (gajos que foram tantas vezes como eu à casa e percebem mais ou menos o que eu de desenho dizem que os painéis do Almada "são fracos", como se houvesse a possibilidade de haverem painéis do Almada que não sejam brilhantes, mas isso é outra história).
Para além da discussão estética/ética, este caso assinala duas coisas:
1- a inveja mais mesquinha de quem viu aquela porcaria a degradar-se durante décadas e nunca mexeu uma palha e só agora se abespinha porque o infeliz proprietário ou descendente pretendia fazer umas massas neste tempo de crise. Dantes podia apodrecer, agora é património da humanidade.
2- a fantástica incompetência dos ladrões deste país que tiveram os painéis do Almada à mercê durante anos sem nunca terem descoberto o filão. Palhaços, andavam entretidos a dar cabo de igrejas e palácios setecentistas abandonados. Pode ser que agora, quando as coisas acalmarem, alguém garantir que o proprietário fica entalado e este for procurar fortuna para outra freguesia, surjam outras oportunidades... é assim que estas coisas sempre terminam não é?

 

Last Posts

A lista dos Last Posts na coluna da direita do blog faz-me sempre lembrar dos Last Poets, esses heróis revolucionários e extremistas que criaram o rap. Não veio a Revolução, veio uma praga sonora, o pinga dos guettos e os programas estupidificantes da MTV, tudo para "os jovens" "rebeldes". Os Last Poets que sobreviveram têm passado a maior parte da vida na choça enquanto os discípulos andam por aí a exibir uma ostentação apalhaçada que dá corpo à expressão "estupidamente rico".

 

Spleen

QUe ronha. Agora ando mais a escrever aquelas frases idiotas do Twitter e aqueles comentários imbecis do Facebook.
O blog é um meio de comunicação de luxo. O Twitter pode ser pontualmente interessante mas a maior parte do tempo não tem "sustentabilidade". O "microblogging" não faz sentido.
O próximo passo dos blogs é um chip atarrachado à moleirinha do utilizador. Isso sim, é que vão ser conteúdos...

sábado, março 14, 2009 

Sempre à frente

Eu já tinha avisado. Aqui.

sexta-feira, março 13, 2009 

Objectividades que me divertem

Há uns dias atrás no Global, a legenda de uma fotografia de venezuelanos celebrando a vitória de Hugo Chavez no último referendo:
"Apaniguados de Hugo Chavez celebram a vitória"...
A edição de hoje do mesmo Global informa que "um juiz de Nova Iorque determinou a detenção imediata do financeiro norte-americano Bernard Madoff."
Uns, serão sempre "apaniguados", outro será sempre um "financeiro"...

domingo, março 08, 2009 

Homo Favelius

A maioria da população humana vive hoje em cidades.
A maioria da população humana que vive em cidades vive em favelas.
Favelas que se auto-organizam segundo princípios que não sendo novos se articulam numa multiplicidade de formas ainda não minimamente compreendidas ou estudadas.
Não se sabe mesmo se essas formas são passíveis de ser analisadas com os instrumentos conceptuais que definiram o que vulgarmente se designa como "civilização".
Em que ponto se deu ou poderá dar essa transição do "normal" domínio colonial ou neo-colonial para este sistema, ou mesmo da exploração feroz por parte das "elites" locais, para realidades corporizadas por fenómenos como o PCC ou os piratas somalis, nigerianos ou malaios?
As pessoas que habitam as grandes favelas africanas asiáticas e sul-americanas com milhões de habitantes dispersos por centenas de quilómetros, apenas formalmente participam do sistema político democrático embora partilhem pelo menos parcialmente alguns dos seus valores e vagamente os idiomas oficiais.
Na realidade tomam contacto com o sistema de forma intermitente, os seus valores são-lhes indiferentes e a sua condição torna-os desinteressantes para os políticos.
O controle, as relações de poder a reutilização ecologicamente radical dos materiais incluindo os detritos da sociedade "normal", os tráficos, conceitos como cidadania, solidariedade, cooperação, a relação entre essas populações e a minoria que vive dentro do sistema.
Um sistema auto-governado é por um lado o sonho dos anti-estatistas de todos os quadrantes e por outro lado é um sistema altamente hierarquizado, eficiente e pouco tolerante face ao desperdício e ao erro.
Um sistema de brutal eficiência "darwinista" de sociedades de insectos com pernas, de extrema crueldade se avaliado à luz dos nossos padrões padrões. Um sistema inclassificável, imparável e implacável.
Apenas o Pentágono e o Mossad terão hoje estudos sérios sobre as suas formas de organização e mesmo assim apenas do ponto de vista da adaptação da estratégia militar a novas condições de combate, vide Fallujah, vide Mogadisho, vide Gaza e Beirute.
Será possível moderar a sua expansão?
Será possível que da sua evolução autónoma assistamos ao nascimento de novas espécies ?

quinta-feira, março 05, 2009 

Apito tropical

Mo Sparks, insaciavelmente curiosa, inquiriu ao seu guia santomense:
- Qual é o seu clube preferido?
- O Futebol Clube do Porto
- Porquê?
- Por causa do nosso primeiro Presidente
- Quem foi?

 

Satanismo

No decorrer de uma recente viagem à bela República de São Tomé, quando visitava uma roça perdida na selva, Mo Sparks, sempre curiosa, perguntou ao seu guia:
- As pessoas daqui são muito religiosas?
- Sim, oitenta por cento são do Benfica, o resto são católicos.

quarta-feira, março 04, 2009 

O equílíbrio das proporções

O PAÍS MAIS CORRUPTO DO MUNDO, berrava indignado o taxista, fomentando uma névoa de perdigotos com um cheiro nauseabundo a saliva no interior do pára-brisas.
PIOR DO QUE ISTO SÓ... O IRAQUE!!
O PAÍS MAIS ATRASADO DO MUNDO!, continuou, NEM NA SOMÁLIA!
A SEGURANÇA SOCIAL É A MAIOR MERDA DO MUNDO! PIOR SÓ NOS PAÍSES DO TERCEIRO MUNDO! FODA-SE, CARALHO, PORQUE ISTO É UM PAÍS DO TERCEIRO MUNDO!
DEVIA VIR A PUTA DA ETA E REBENTAR COM ESTES CABRÕES DE FILHAS DA PUTA DO CARALHO DESTES POLÍTICOS, os palavrões saíam-lhe da boca com o desespero de quem não encontra palavras para designar a desmesura, todos, afinal, menos ele e eventualmente o interlocutor aleatório, CARALHOS, FODAM-SE... TODOS!
Paguei com cinco euros e deixei o troco.

 

Composição Geométrica

Do outro lado da rua.
Cena de bairro, nocturna, normal.
Um sujeito de gabardina dava tabaco a duas raparigas.
O habitual bailado browniano da adolescência.
Havia um outro vulto. Masculino.
Pelo canto do olho, no espaço entre dois carros, entre as rodas de trás do Peugeot e o pára-choques do Audi, uns jeans prolongados nuns ténis All Star alongavam-se horizontalmente ao longo do passeio.
Prossegui o meu caminho com os ouvidos cheios de Migala.

domingo, março 01, 2009 

Jogada de mestre

O Congresso do Partido Socialista foi um relativo êxito dados os condicionalismos que neste momento afectam a situação política em Portugal e o partido do governo.
Muito se fala da "central de informação" do PS, mas tornou-se evidente que os seus estrategas de comunicação apenas jogam com a forma estereotipada como os media tratam dos eventos políticos em Portugal.
Ao ignorar o seu principal adversário, o PSD, e focalizando críticas no Bloco de Esquerda, Sócrates criou artificialmente um "facto político relevante" e enviou uma imprensa totalmente a reboque e cujo modelo de procedimento é o estilo coscuvilheiro da imprensa desportiva, obter as "reacções" de Louçã, dando a este minutos de fama aproveitados com avidez e mal disfarçada vaidade e reduzindo o tempo de antena dos partidos de direita.
Os cronistas mais à direita esqueceram as habituais eleições apoteóticas e unânimes dos lideres do PSD e do PP e realçaram com impotência e talvez inveja o facto de o PS apoiar Sócrates com uma unanimidade "ceausesquiana".
No entanto ninguém conseguiu explicar o porquê da ausência de notórios críticos internos, como é o caso evidente de Manuel Alegre.
Ora se a crítica interna não se manifesta e não existem indícios de pressões ilegítimas sobre os seus protagonistas que admiração pode causar que o Partido pareça unido, se exceptuarmos o episódio anedótico do congressista anti casamentos homossexuais?
Quanto ao caso Freeport, metido a destempo pela outra "central" e que já só sobrevoa a paisagem politica portuguesa por mera inércia e através de "réplicas" atrozmente ridículas como a história de o Ministério Público ir investigar os tais projectos da pré-história do Sócrates e a "investigação" do Público aos preços de comercialização de um determinado prédio na esquina da Rua Castilho com a Braancamp, cujo único mérito foi o de merecer um comentário idiota do Marcelo, não teve qualquer papel no Congresso.
Porém, o factor negativo, e porventura o mais decisivo, foi a evidência da impossibilidade de uma nova maioria absoluta.
Uma coisa é o eleitorado perceber que o PS é neste momento um mal menor.
Outra coisa é esse eleitorado mobilizar-se em força para votar num partido cuja governação se até agora mereceu elogios foi da Direita pelo seu ímpeto "reformista". Ao olhar para o estado em que se encontram as economias dos países até há pouco apontados como "modelos" de reformismo, já o eleitorado percebeu bem o sentido e o fim das "reformas".
As próximas eleições vão ser bastante marcadas pela abstenção e tanto o PS como os restantes partidos não vão poder contar com mais do que os seus "núcleos duros", o que não vai permitir a ninguém conquistar maiorias absolutas.